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Documento de 218 páginas e ofício de remessa foram assinados por sete servidores e quatro delegados; direção-geral não aparece nas duas peças.


Por Mateus Ayres para O estopim |

11 de setembro de 2026


Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, citado em relatório do Caso Master enviado ao STF.
Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, citado em relatório do Caso Master enviado ao STF. | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

O relatório da Polícia Federal que levou ao Supremo Tribunal Federal as referências a Andrei Rodrigues encontradas no celular de Daniel Vorcaro foi produzido e remetido por unidades da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção, a DICOR, sem assinatura ou despacho da direção-geral da corporação nas duas peças centrais analisadas por O estopim.


A Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 3298613/2026 tem 218 páginas e identifica como unidade responsável o NADIP/DFIN/CGRC/DICOR/PF. O documento é subscrito por três agentes e quatro delegados federais. Andrei Rodrigues não está entre os signatários.


O envio formal ao ministro André Mendonça foi feito pelo Ofício nº 3305795/2026-CINQ/CGRC/DICOR/PF, datado de 27 de agosto. A folha de remessa foi assinada por quatro delegados: Daniel Mostardeiro Cola, Wedson Cajé Lopes, Victor Arruda de Oliveira e Guilherme Alves de Siqueira. Também não há assinatura ou despacho do Gabinete do Diretor-Geral nessa peça.


A cadeia documental mostra como uma análise que terminaria por projetar o nome do próprio chefe da PF para o centro da crise institucional entre a corporação e o STF circulou formalmente até o gabinete do relator.


Ordem de Mendonça foi dirigida diretamente à CINQ


A rota administrativa começa na própria decisão de André Mendonça.


Ao reproduzir a ordem judicial que deu origem ao trabalho, o relatório registra que o ministro determinou diretamente ao coordenador de Inquéritos nos Tribunais Superiores, a CINQ/DICOR/PF, que acionasse os delegados responsáveis pela Operação Compliance Zero.


A requisição estabeleceu prazo de 72 horas para que a equipe apresentasse informações atualizadas sobre a suposta rede de influência e monitoramento de Daniel Vorcaro e identificasse pessoas mencionadas nas mensagens apreendidas, inclusive autoridades com foro no Supremo.


A estrutura oficial da PF coloca a CINQ e a Divisão de Repressão aos Crimes Financeiros dentro da Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro, subordinada à DICOR. A direção-geral aparece como estrutura distinta no organograma da corporação.


A análise foi produzida pelo Núcleo de Análise de Dados de Inteligência Policial da divisão de crimes financeiros, o NADIP/DFIN/CGRC/DICOR.


Quem assinou o relatório


Na página 217, o relatório identifica os sete servidores responsáveis pelo trabalho.


Os agentes são Bruno Cavalcanti Teixeira, Lucas Daniel de Sá Soares de Matos e Paulo Danilo Batista Diniz Leite.


Os delegados são Guilherme Alves de Siqueira, Wedson Cajé Lopes, Victor Arruda de Oliveira e Daniel Mostardeiro Cola.


Daniel Mostardeiro Cola ocupa a Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro. A própria PF registra essa função em sua página oficial de composição institucional.


No ofício de remessa ao STF, os mesmos quatro delegados aparecem novamente como signatários. Victor Arruda assina como coordenador de Inquéritos nos Tribunais Superiores. Wedson Cajé aparece como coordenador de Repressão à Corrupção e Guilherme Siqueira como chefe da Divisão de Repressão aos Crimes Financeiros.


A documentação disponível não traz uma etapa intermediária assinada por Andrei Rodrigues entre a produção do relatório e sua entrega ao gabinete de Mendonça.


O que a PF pesquisou sobre Andrei Rodrigues


O nome do diretor-geral aparece na parte final do relatório, em uma seção específica intitulada “Das Pesquisas Por Termos Relacionados Com ‘Andrei Passos’”.


A equipe registrou que não encontrou no aparelho de Vorcaro um contato salvo como “Andrei Passos” ou “Andrei”. A busca nos demais chats localizou referências feitas por terceiros a uma pessoa que os investigadores relacionaram ao diretor-geral.


Um dos episódios remonta a abril de 2024.


Mensagens encaminhadas por Fábio Faria a Daniel Vorcaro tratavam de um convite ao “DPF Andrei” para um evento em Londres. Pouco depois, outra mensagem dizia que ele havia aceitado. O relatório também reproduz uma conversa na qual Vorcaro informa que um “Ministro fez convite ao andrei PF”.


Na sequência, um interlocutor encaminha mensagem atribuída a uma assistente do diretor-geral da PF perguntando sobre passagem e hospedagem. A resposta registrada foi de que as despesas seriam bancadas pelos organizadores.


Em outra passagem, relacionada a outubro de 2025, Vorcaro escreveu em uma nota que seria importante reforçar com “Andrei e Paulo” para impedir uma ação de pessoas hierarquicamente inferiores. A PF registrou que os nomes poderiam corresponder a Andrei Rodrigues e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.


Relatório foi produzido em 72 horas


O documento chegou ao STF em 27 de agosto, três dias depois da requisição.


Reportagem do UOL revelou que integrantes da PF foram chamados para uma reunião com Mendonça em 24 de agosto e receberam ali a ordem de produzir o material em 72 horas. Segundo o veículo, investigadores reagiram internamente ao formato da requisição e à possibilidade de o trabalho alcançar autoridades com prerrogativa de foro.


O próprio IPJ-A registra no final que o trabalho foi produzido dentro do prazo de 72 horas fixado judicialmente.


Mendonça retirou o sigilo da peça em 1º de setembro. A divulgação das 218 páginas levou para o centro do debate as mensagens e documentos encontrados no celular de Vorcaro envolvendo Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues.


Dois relatórios diferentes atravessam a crise


A crise institucional passou posteriormente a envolver um segundo conjunto de documentos da Polícia Federal.


O IPJ-A nº 3298613/2026, de 218 páginas, é um relatório de polícia judiciária assinado por sete servidores e encaminhado formalmente ao STF.


Outro material, produzido por uma unidade de inteligência da PF e utilizado por Alexandre de Moraes para pedir providências contra André Mendonça, foi posteriormente classificado pelo próprio Mendonça como “apócrifo”. Esse segundo conjunto foi o centro da decisão de 8 de setembro que determinou o afastamento de Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada.


As duas peças tiveram origens e funções diferentes dentro da Polícia Federal, embora ambas tenham passado a integrar o mesmo conflito entre a cúpula da corporação e ministros do Supremo.


A crise chegou ao comando da PF


A divulgação do primeiro relatório foi seguida por uma sequência de decisões e acusações cruzadas.


A PGR questionou a investigação conduzida sob relatoria de Mendonça. Alexandre de Moraes pediu providências contra o colega. Mendonça, dias depois, determinou o afastamento de Andrei e Almada. A direção da PF reagiu e, segundo apuração do UOL, classificou a decisão como política.


Flávio Dino posteriormente determinou a reintegração dos dois dirigentes. Edson Fachin entrou no conflito, suspendeu decisões concorrentes, manteve Andrei no comando da PF e convocou o plenário para analisar a crise na segunda (15).


A análise das peças de 27 de agosto acrescenta um dado à reconstrução desse conflito: o documento que levou ao STF as referências a Andrei foi produzido, assinado e formalmente encaminhado por unidades da DICOR sem que a direção-geral apareça como signatária nas duas peças que formam a cadeia de produção e remessa.


Por que isso importa


A cadeia de assinaturas mostra onde estava formalmente concentrada a produção do documento que desencadeou uma das fases mais graves da crise entre PF, PGR e Supremo.


O relatório saiu de uma unidade especializada em análise de dados vinculada à repressão a crimes financeiros. O encaminhamento ao STF partiu da Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores. A ordem de Mendonça havia sido dirigida diretamente a essa coordenação.


Ao mesmo tempo, o material continha uma seção dedicada ao próprio diretor-geral da instituição e passou a ser utilizado no debate político e judicial sobre sua atuação.


A abertura dos autos permite agora reconstruir não apenas o conteúdo das mensagens de Vorcaro, mas também quem produziu, assinou e transmitiu cada documento que alimentou a crise institucional.


O que acontece agora?


O plenário do STF está convocado para segunda (15) para discutir os desdobramentos da crise, incluindo questionamentos sobre a validade e o uso de documentos produzidos pela Polícia Federal.


A cadeia administrativa do IPJ-A nº 3298613/2026 também abre novas questões de apuração dentro da PF: quais unidades receberam formalmente a ordem, como foi montada a equipe de sete servidores, quais superiores foram comunicados durante as 72 horas de trabalho e quais registros administrativos existem entre a determinação de Mendonça e a entrega do ofício ao STF.


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Mateus Ayres é jornalista de O estopim, com atuação em política nacional, internacional e análise de conjuntura. Seu trabalho acompanha poder, instituições e justiça social com rigor documental e compromisso com o interesse público.

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