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Bia Kicis, Marcos Pollon, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem direcionaram emendas para projetos da Academia Nacional de Cultura, presidida por Karina Gama, empresária que controla a produtora da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Documentos do STF, da Polícia Federal e da CGU reconstroem uma teia de relações políticas, empresariais e financeiras em torno das entidades ligadas à empresária.


Por Raul Silva para O estopim |

13 de setembro de 2026


Quatro nomes do PL, R$ 3,6 milhões e a produtora de Dark Horse: documentos expõem o mesmo núcleo
Quatro nomes do PL, R$ 3,6 milhões e a produtora de Dark Horse: documentos expõem o mesmo núcleo | Foto: Reprodução

A investigação sobre o ecossistema de entidades e empresas comandado por Karina Ferreira da Gama abriu uma frente que ultrapassa a discussão sobre a origem dos recursos empregados na produção de Dark Horse. Documentos do Supremo Tribunal Federal, relatórios da Controladoria-Geral da União e peças incorporadas ao inquérito policial mostram que quatro parlamentares do PL, Bia Kicis, Marcos Pollon, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, direcionaram emendas para projetos que tinham como beneficiária a Academia Nacional de Cultura, a ANC, presidida pela mesma empresária que controla a Go Up Entertainment, responsável pela cinebiografia de Jair Bolsonaro.


Os documentos também mostram que os quatro nomes aparecem em diferentes etapas da apuração e por caminhos administrativos distintos.


Na PET 16.669, que concentra a etapa mais recente da investigação sob relatoria do ministro Flávio Dino, Bia Kicis e Marcos Pollon aparecem nominalmente na descrição da chamada “plataforma indiciária”.


A decisão reproduz a informação de que o inquérito instaurado pela Polícia Federal tinha entre seus objetos as emendas nº 202444200010, de Pollon, e nº 202439190003, de Kicis, além de duas emendas apresentadas por Mário Frias.


Na página 5, o documento identifica também os valores e o projeto escolhido pelos parlamentares. Marcos Pollon destinou R$ 1 milhão e Bia Kicis, R$ 150 mil, por intermédio do Governo de São Paulo, para o projeto Heróis Nacionais.


O documento registra:


“não tendo havido, até a presente data, repasse de qualquer valor a essa entidade, em razão de óbices normativos e técnicos”

A entidade mencionada é a Academia Nacional de Cultura.


Na sequência, a Polícia Federal destaca outro elemento da operação das emendas. Pollon foi eleito por Mato Grosso do Sul e Kicis pelo Distrito Federal, enquanto as duas indicações foram direcionadas para São Paulo.


Segundo a representação reproduzida pelo STF, a situação “revela aparente desconformidade com a exigência de absoluta vinculação federativa”.


A ANC, o Instituto Conhecer Brasil e a Go Up aparecem na mesma investigação dark horse


A PET 16.669 detalha a estrutura empresarial e institucional analisada pelos investigadores.

Na página 17, a Academia Nacional de Cultura é descrita como organização presidida por Karina Gama e beneficiária das emendas apresentadas por Pollon e Kicis.


O documento registra que essas emendas “não tiveram execução financeira” e acrescenta uma informação central para compreender por que a Polícia Federal passou a examinar diferentes pessoas jurídicas em conjunto.


Segundo a decisão, a ANC:


“Compartilha integrantes, procuradores e administradores com o Instituto Conhecer Brasil, integrando a mesma estrutura de gestão e execução dos projetos financiados com recursos públicos.”

Logo depois, a documentação começa a descrever a Go Up Entertainment.


Na página seguinte, a empresa aparece vinculada diretamente a Karina Gama e é identificada de maneira explícita como “Produtora do filme Dark Horse”.


A representação policial também sustenta que a Go Up recebeu recursos de pessoas e empresas relacionadas ao núcleo investigado, circunstância apontada pelos investigadores como indicativo de “possível integração patrimonial e operacional com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares”.


A documentação policial estabelece, portanto, a ponte que passou a ser rastreada entre as entidades escolhidas para executar projetos financiados com recursos públicos e a empresa responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro.


No caso específico das emendas de Pollon e Kicis, os autos registram que os valores não foram transferidos à ANC.


O dinheiro chegou ao Governo de São Paulo, mas a contratação da ANC não avançou


A sequência documental ajuda a compreender a diferença entre cifras e informações que apareceram em diferentes momentos da investigação.


Peças mais antigas incorporadas ao inquérito paulista reproduzem reportagem segundo a qual a ANC “já havia recebido R$ 2,6 milhões em emendas Pix” apresentadas por Alexandre Ramagem, Carla Zambelli, Bia Kicis e Marcos Pollon para a série Heróis Nacionais.


O trecho foi incorporado ao Inquérito Policial nº 2104062-06.2026.900842 e cita nominalmente os quatro parlamentares.


A documentação oficial produzida posteriormente detalhou o caminho administrativo desses recursos.


A PET 16.669 registra a inexistência de repasse das emendas de Pollon e Kicis à Academia Nacional de Cultura. A auditoria da CGU, divulgada em setembro, mostra que as verbas foram transferidas para o Governo de São Paulo, mas que a contratação da ANC não chegou a ser concluída.


O governo paulista informou a existência de “impedimentos técnico-jurídicos” e abandonou a execução dos projetos.


Assim, as emendas foram destinadas a projetos que tinham a ANC como entidade executora, os recursos chegaram ao Estado de São Paulo e a parceria não se concretizou.


Zambelli e Ramagem aparecem em outra camada da documentação


Carla Zambelli e Alexandre Ramagem aparecem em uma trajetória documental diferente daquela registrada para Kicis e Pollon na PET 16.669.


Os dois já surgiam em março na ADPF 854, quando Flávio Dino reproduziu uma representação apresentada pela deputada Tabata Amaral.


A peça mencionava aproximadamente R$ 2,6 milhões em emendas Pix destinadas à ANC por Ramagem, Zambelli, Kicis e Pollon.


O documento afirmava que a concentração das indicações na mesma organização evidenciava uma “convergência de interesses que demanda análise cautelosa”.


Naquele despacho, Dino determinou a intimação nominal de Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon, além da Câmara dos Deputados. Ramagem e Zambelli apareciam no histórico das emendas citado na documentação.


Meses depois, a posição dos dois ganhou uma dimensão documental mais ampla. Em relatório produzido em julho e encaminhado ao ministro Flávio Dino, a Controladoria-Geral da União identificou seis repasses de emendas de cinco deputados para entidades vinculadas a Karina Gama.


No recorte específico da Academia Nacional de Cultura, o órgão consolidou aproximadamente R$ 3,6 milhões provenientes de quatro parlamentares, destinados a dois projetos: Heróis Nacionais: Filhos do Brasil que não se rende e o espetáculo musical Amor Ainda É Tudo.


Segundo a auditoria, Carla Zambelli respondeu por R$ 2 milhões e Alexandre Ramagem por R$ 500 mil.


O restante correspondia às indicações de Marcos Pollon e Bia Kicis. Também nesses casos, os recursos foram encaminhados ao Governo de São Paulo e a parceria com a ANC não foi concluída.


A CGU classificou os planos de trabalho como insuficientemente elaborados, enquanto o governo estadual apontou obstáculos técnico-jurídicos para a execução.


Os números diferentes presentes nos documentos correspondem a recortes distintos. Os R$ 2,6 milhões divulgados inicialmente estavam associados ao conjunto de indicações para Heróis Nacionais. A auditoria posterior da CGU ampliou o universo analisado, reuniu dois projetos vinculados à ANC e chegou ao montante aproximado de R$ 3,6 milhões.


Quatro gabinetes e uma mesma entidade


É nesse ponto que a investigação passa da análise individual das emendas para uma questão política mais ampla.


Em um intervalo próximo, quatro parlamentares do mesmo campo político escolheram a mesma organização presidida por Karina Gama para projetos culturais que somavam milhões de reais.


Ao mesmo tempo, outra empresa controlada pela empresária produzia Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.


Dentro dos autos, a Academia Nacional de Cultura não aparece isoladamente. A Polícia Federal situa a ANC em uma estrutura de gestão compartilhada com o Instituto Conhecer Brasil, ICB.


A Go Up Entertainment também aparece vinculada a Karina Gama e é descrita na representação como empresa com possível integração patrimonial e operacional com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares.


A própria PET registra que a investigação federal passou a aprofundar vínculos societários, doações eleitorais e relações entre fornecedores, empresas e personagens políticos.


A pergunta que emerge dos documentos é direta: como quatro gabinetes chegaram à mesma entidade?


Quem apresentou a Academia Nacional de Cultura aos parlamentares? Quem encaminhou o projeto Heróis Nacionais? Quem solicitou as emendas? Quais reuniões ocorreram antes das indicações? Houve uma apresentação comum do projeto aos gabinetes?


Essas perguntas passaram a ocupar o centro da apuração porque a convergência não envolve apenas parlamentares de um mesmo partido. Ela ocorre em torno de uma organização comandada por uma empresária que também controla a produtora responsável por uma obra cinematográfica sobre a principal liderança política desse mesmo campo.


A relação de Mário Frias com Karina Gama


A documentação também registra uma relação mais extensa entre Mário Frias e Karina Gama.


Karina participou da campanha de Frias. Empresa ligada à empresária prestou serviços eleitorais ao parlamentar e entidades sob seu comando receberam emendas apresentadas por ele.


Essa conexão aparece de maneira detalhada nos autos e integra a frente de apuração sobre vínculos societários, eleitorais, empresariais e políticos relacionados às entidades investigadas.


O avanço sobre comunicações, documentos eletrônicos, registros de reuniões e materiais apreendidos pela Polícia Federal pode determinar se as indicações feitas por diferentes gabinetes resultaram de decisões independentes ou de algum mecanismo comum de apresentação e captação de recursos. É essa resposta que pode definir a dimensão política do caso.


O que dizem os citados


Marcos Pollon afirma que sua emenda era destinada exclusivamente ao projeto Heróis Nacionais e que, diante da impossibilidade de execução, solicitou o cancelamento e o redirecionamento do valor para uma instituição oncológica.


Bia Kicis nega relação entre sua emenda e a produção de Dark Horse e afirma que o recurso tinha como destino o projeto cultural.


Reportagem do UOL também registra que Kicis, Pollon e Zambelli negaram ao STF irregularidades ou intenção de direcionar os recursos para o filme.


Karina Gama nega que dinheiro proveniente de emendas parlamentares tenha financiado Dark Horse.


Em entrevista divulgada neste domingo, 13 de setembro, afirmou que a produção cinematográfica não recebeu recursos públicos.


O que já está documentado é a convergência: quatro nomes do PL direcionaram emendas para projetos ligados à Academia Nacional de Cultura, presidida pela mesma empresária que controla a produtora responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro.


O próximo capítulo depende de uma pergunta que vai além dos valores individuais de cada emenda: quem construiu a ponte entre esses gabinetes e a ANC?


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Raul Silva é jornalista político sênior de O estopim e especialista em Ciências Políticas. Atua na cobertura do poder, das instituições brasileiras, das relações entre política e sociedade e dos mecanismos de financiamento e articulação que atravessam o Estado.

Custódia do ex-diretor da Abin e ex-deputado condenado por tentativa de golpe abre nova frente entre cooperação internacional, discurso de perseguição e disputa sobre asilo político


Por Raul Silva para O estopim | 13 de abril de 2026




Homem de terno escuro e gravata fala ao microfone, com expressão séria. Fundo azul. Ambiente formal, possivelmente uma conferência.
Ex-deputado Alexandre Ramagem que estava foragido da justiça brasileira foi preso pelo ICE nos EUA | Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

A detenção de Alexandre Ramagem pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos, o ICE, nesta segunda-feira, recoloca no centro do debate um tema que ultrapassa a biografia do ex-diretor da Abin e ex-deputado federal: até onde vai a capacidade do Estado brasileiro de fazer valer, fora de suas fronteiras, decisões judiciais ligadas à trama golpista que tentou corroer a ordem democrática após a eleição de 2022.


O estopim deste novo capítulo está menos no gesto policial em si e mais no que ele simboliza. Ramagem não era um réu periférico. Ao contrário. Sua trajetória conectou aparato de inteligência, núcleo político bolsonarista, disputa eleitoral, tentativa de deslegitimação do sistema de votação e, mais tarde, fuga para os Estados Unidos depois da condenação. Sua detenção, portanto, não é um episódio isolado. É a continuação internacional de uma crise brasileira.


Confirmada por autoridades brasileiras e noticiada pela imprensa internacional, a custódia ocorre meses depois de o governo do Brasil formalizar o pedido de extradição do ex-parlamentar aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, aliados de Ramagem sustentam a versão de que a ação teria nascido de uma abordagem por infração leve de trânsito e que o ex-deputado teria pedido de asilo pendente. Até aqui, porém, o ponto decisivo é outro: não há explicação pública conclusiva sobre qual foi o fundamento imediato da ação do ICE.


Alexandre Ramagem foi detido em território norte-americano e aparece como caso sob custódia migratória, segundo relatos convergentes de autoridades brasileiras e da cobertura jornalística desta segunda-feira. A Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmaram a ocorrência da prisão.


Também está documentado que o governo brasileiro já havia formalizado, no fim de janeiro, o pedido de extradição aos Estados Unidos. O ofício enviado ao Supremo Tribunal Federal informa que a solicitação foi entregue pela embaixada brasileira em Washington ao Departamento de Estado em 30 de dezembro de 2025. Não há prazo público para a análise desse pedido.


Outro dado central é o contexto penal. Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado. Depois, perdeu o mandato parlamentar. Segundo informações oficiais já divulgadas, ele deixou o Brasil em setembro de 2025, pela fronteira com a Guiana, e seguiu para os Estados Unidos antes da execução da pena.


Homem com colete "POLICE ICE" de costas, diante de bandeira dos EUA rachada e logo "U.S. Customs and Border Protection". Atmosfera séria.
Agente do ICE diante de um fundo com a bandeira dos EUA e o emblema da proteção de fronteiras, simbolizando a fiscalização e controle imigratório. | Foto: Reprodução

Há uma diferença decisiva entre fato confirmado e versão interessada. O fato confirmado é a detenção pelo ICE. A versão interessada, até agora sem confirmação pública independente, é a de que tudo começou apenas com uma infração leve de trânsito em Orlando e de que o caso seria estritamente burocrático do ponto de vista migratório.


Essa diferença importa porque ela define o enquadramento da notícia. Se a causa imediata foi apenas uma abordagem policial de rotina, o caso pode caminhar inicialmente pela trilha migratória comum. Se houve acionamento decorrente da cooperação entre Brasil e Estados Unidos, o peso político e judicial da detenção é outro. As duas possibilidades não são mutuamente excludentes, mas hoje não há transparência suficiente para cravar qual delas prevalece.


Também não há, até este momento, documentação pública detalhada que permita verificar em que estágio está eventual pedido de asilo, nem se esse elemento produz efeito imediato capaz de travar uma remoção ou apenas abrir uma disputa administrativa e judicial mais longa.


No plano jurídico norte-americano, a detenção pelo ICE não se confunde automaticamente com extradição. São trilhas que podem dialogar politicamente, mas não são idênticas. Em regra, a frente migratória passa pelo Departamento de Segurança Interna e pela Justiça migratória. Quando o governo entende que um estrangeiro deve responder a procedimento de remoção, o processo se inicia com uma notificação formal e segue para análise de um juiz de imigração, que pode examinar a removibilidade e eventual pedido de proteção contra a retirada do país.


A frente extradicional, por sua vez, tem outra natureza. Ela envolve a solicitação formal feita por um Estado a outro, tramitação diplomática e exame judicial dentro das regras aplicáveis ao acordo bilateral e à legislação americana. Em termos práticos, isso significa que a detenção de Ramagem pode produzir uma convergência entre as duas esferas, mas essa convergência não é automática.


Traduzindo para o leitor: estar sob custódia do ICE não significa, por si só, embarque imediato para o Brasil. Significa, isso sim, que a permanência dele em território americano entrou numa zona crítica de revisão institucional.


Para o governo brasileiro e para o sistema de Justiça, o caso tem valor simbólico e operacional. Simbólico porque a responsabilização dos articuladores da ruptura democrática perde coerência se quadros centrais conseguem transformar o exterior em abrigo seguro. Operacional porque o êxito, ainda que parcial, de mecanismos de cooperação internacional reforça a autoridade das decisões do STF.


Para o bolsonarismo, a batalha é outra. O esforço é converter uma condenação por tentativa de golpe numa narrativa de perseguição política, buscando deslocar a discussão do campo penal para o campo ideológico. O asilo, nesse contexto, deixa de ser apenas instrumento jurídico e passa a funcionar como peça de comunicação política. Não se trata apenas de permanecer nos Estados Unidos. Trata-se de produzir a imagem de exilado.


Para os Estados Unidos, o caso também é sensível. Ele cruza política migratória, relações diplomáticas e o custo de hospedar personagens estrangeiros associados a ataques institucionais em seus países de origem. Em outras palavras, a pergunta americana não é apenas quem é Ramagem, mas que tipo de precedente o tratamento dado a ele pode criar.


A prisão de Ramagem fora do Brasil ilumina uma verdade incômoda sobre a crise institucional brasileira: os efeitos do bolsonarismo radicalizado deixaram de caber apenas nas fronteiras nacionais. A trama golpista produziu desdobramentos transnacionais, seja pela circulação de personagens, seja pelo uso de redes políticas e ideológicas internacionais para tentar blindar condenados.


Há ainda um dado estrutural. Ramagem ocupou posto estratégico de inteligência no governo Bolsonaro. Isso confere ao episódio densidade distinta. Quando um ex-chefe de inteligência, condenado por participação em ação contra a ordem democrática, foge e acaba detido no exterior, a notícia não fala apenas de um indivíduo. Ela fala da degradação de mecanismos estatais que deveriam proteger a República e que, em vez disso, foram arrastados para dentro da disputa de facção.


No curto prazo, há pelo menos três cenários plausíveis.


  • O primeiro é a liberação sob condições, caso a frente migratória avance mais rapidamente do que a extradicional e a defesa consiga sustentar algum tipo de proteção provisória.

  • O segundo é a manutenção da custódia com aprofundamento da cooperação entre autoridades brasileiras e americanas, o que aproximaria o caso de um desfecho favorável à entrega ao Brasil.

  • O terceiro é um impasse prolongado, com judicialização, disputa sobre asilo, recursos e forte exploração política do caso pelos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.


Nenhum desses cenários é neutro. Todos carregam efeitos sobre a percepção pública da força das instituições brasileiras, da confiabilidade da cooperação internacional e da capacidade da extrema direita de fabricar mártires a partir de réus condenados.


Mais do que o destino pessoal de Alexandre Ramagem, o que está em disputa é a mensagem institucional do caso. Se a democracia brasileira condena, mas não consegue executar; se a cooperação internacional é acionada, mas não produz consequência; se a fuga vira apenas etapa tática de um roteiro político, o sinal emitido é de fragilidade.


Se, ao contrário, o processo avançar com base em devido processo legal, transparência mínima e coordenação entre Estados, o episódio pode se tornar um marco de responsabilização real, e não apenas simbólica, dos agentes que apostaram na ruptura.


Em política, a forma também é substância. E, neste caso, a forma como Brasil e Estados Unidos tratarão Ramagem dirá muito sobre o valor concreto que ambos atribuem à defesa da institucionalidade democrática.


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Raul Silva é jornalista político e analista de conjuntura de O estopim. Escreve sobre instituições, democracia, relações de poder e os efeitos sociais das decisões tomadas no topo da República.


A sustentação oral da defesa de Anderson Gustavo Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança do DF, revelou uma estratégia defensiva que, embora tecnicamente elaborada, apresenta vulnerabilidades significativas diante do robusto conjunto probatório reunido pela Procuradoria-Geral da República no processo que apura a tentativa de golpe de Estado.


Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública  • Marcelo Camargo/Agência Brasil
Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública  • Marcelo Camargo/Agência Brasil

A controvérsia das passagens aéreas


Um dos pontos centrais da defesa, apresentada pelo advogado Dr. Novac, concentrou-se na polêmica viagem de Torres aos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2023, véspera dos atos antidemocráticos. O defensor atacou frontalmente a versão da PGR, que sugeriu uma "ausência deliberada" do então secretário.


"Essas passagens foram juntadas no processo em janeiro de 2023. O Ministério Público passa todo esse tempo sem fazer um questionamento sequer e na sua última manifestação formal traz ainda uma ameaça de abrir novo procedimento investigatório para apurar a possível fraude", argumentou Dr. Novac, exibindo documentos que, segundo ele, comprovam que os bilhetes foram emitidos em 21 de novembro de 2022.

A defesa foi enfática ao afirmar que "nesta data sequer havia qualquer cogitação em relação aos atos do 8 de janeiro", uma alegação que encontra respaldo no depoimento do governador Ibanês, citado pelo advogado:


"Ele havia me comunicado de uma primeira reunião que nós tivemos quando eu convidei ele para ser secretário, que ele tinha uma viagem com a família".

Contudo, esta linha argumentativa encontra fragilidades quando confrontada com o conjunto probatório da PGR. A denúncia revela que:


"a última esperança da organização estava na manifestação de 8 de janeiro", e que "os integrantes da estrutura criminosa conheciam o intuito de criação do cenário de comoção social".

O timing da viagem, portanto, ganha contornos mais suspeitos quando inserido no contexto maior da trama golpista.


Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024
Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024

A participação nas reuniões ministeriais


Outro pilar da defesa foi a tentativa de minimizar a participação de Torres na reunião ministerial de julho de 2022, onde, segundo a denúncia, houve "concitação expressa de ataques às urnas e à difusão de notícias infundadas" sobre o adversário político de Bolsonaro.


Dr. Novac argumentou que Torres foi "desconfortável com o tema, porque não conhecia bem do assunto" na live sobre urnas eletrônicas, e citou perícia que concluiu: "não se observou manifestação opinativa ou juízo de valor na fala do ex-ministro".


Sobre a reunião ministerial, a defesa destacou que Torres teria dito: "Depois que der merda, não muda nada não", interpretando isso como "espírito de aceitação em relação aos resultados da eleição". Diversas testemunhas foram citadas negando caráter golpista ao encontro.


No entanto, a PGR apresenta uma versão substancialmente diferente. A denúncia relata que na reunião:


"um dos generais denunciados" disse: "o que tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições. Se tiver que dar soco na mesa, é antes das eleições. Se tiver que virar a mesa, é antes das eleições".

O contexto descrito pela acusação sugere um ambiente muito mais conspiratório do que a defesa admite.


Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024
Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024

A questão da minuta golpista


Um dos pontos mais delicados da defesa refere-se à minuta de decreto encontrada na residência de Torres. O advogado argumentou que o documento:


"estava circulando na internet" e que "vinha sendo distribuída para várias pessoas".

Citou depoimento de Valdemar Costa Neto:


"aquela proposta que tinha na casa do ministro da justiça, isso tinha na casa de todo mundo".

A defesa também destacou perícia que concluiu pela "ausência total de compatibilidade formal, textual e estrutural" entre a minuta apreendida e o documento atribuído a Mauro Cid, sugerindo tratarem-se de textos distintos.


Entretanto, a PGR apresenta uma narrativa mais comprometedora. A denúncia detalha que:


"de atos de formalização de quebra da ordem constitucional" e que "o Presidente da República à época chegou a apresentar uma delas".


O fato de Torres possuir uma dessas minutas, mesmo que amplamente circulada, ganha significado criminal quando inserido no contexto da organização criminosa descrita pela acusação.


Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024
Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024

A omissão no 8 de Janeiro


Talvez o ponto mais frágil da defesa seja a explicação para a ausência de Torres no dia dos ataques às sedes dos Três Poderes. Dr. Novac argumentou que o ex-secretário:


"convoca o general Dutra" e a secretária Marra "para desmobilizar os acampamentos em frente aos quartéis", citando testemunha que confirmou discussões sobre "expedição de mandato de prisão para os líderes do acampamento".

A defesa sustentou que Torres assinou protocolo de segurança antes de viajar, que previa que


"não seria permitido o acesso à praça dos três poderes" e contenção de pessoas portando instrumentos que pudessem causar "baderna generalizada".

Contudo, a versão da PGR é devastadora para esta linha defensiva. A denúncia afirma que:


"três dos personagens envolvidos" na manipulação da PRF durante as eleições "tornaram ao proscênio do golpe em 8 de janeiro de 2023, quando atuavam na Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal e facilitaram o movimento insurrecionista violento".

Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024
Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024

Fragilidades estruturais da defesa


A estratégia defensiva de Anderson Torres, embora tecnicamente competente, apresenta vulnerabilidades significativas quando confrontada com o volume e a consistência das provas reunidas pela PGR.


  1. Primeiro, a defesa adota uma abordagem fragmentária, contestando episódios isolados sem enfrentar adequadamente a tese central da acusação: a existência de uma organização criminosa estruturada. A PGR descreve Torres como integrante do "núcleo crucial da organização criminosa", atuando em "ação coordenada" com outros denunciados.

  2. Segundo, muitas das explicações oferecidas pela defesa dependem de coincidências ou interpretações benévolas de comportamentos que, no contexto da conspiração descrita pela PGR, ganham significado criminal. A viagem aos EUA, por exemplo, pode ter sido planejada antes, mas sua execução às vésperas dos atos extremistas é, no mínimo, suspeita.

  3. Terceiro, a defesa não consegue explicar satisfatoriamente a convergência de ações: por que Torres participou de reuniões onde se discutiu "uso da força", possuía minuta golpista, coordenou ações da PRF que favoreciam Bolsonaro e estava ausente justamente no momento crítico?


Questionamentos dos ministros


Durante a sustentação, o ministro Luís Fux fez questionamento que revelou preocupação com lacunas na versão defensiva: "alguma tese para o dia da eleição", referindo-se ao segundo turno e às ações da PRF. A resposta do advogado foi evasiva, limitando-se a dizer que "todo o planejamento operacional de emprego, tanto do efetivo da PRF quanto da PF, foi institucional".


Este questionamento vai ao cerne das acusações: a PGR demonstra que houve:


"mobilização de aparatos de órgãos de segurança para mapear lugares em que o candidato da oposição obtivera votação mais expressiva" e que a "Polícia Rodoviária Federal foi levada a realizar operações, visando a dificultar o acesso tempestivo dos eleitores".

Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024
Trecho do Arguivo da Denúncia da PGR - ASSCRIM/PGR N. 212310/2024

A defesa de Anderson Torres, embora elaborada com competência técnica, parece insuficiente para desconstruir a narrativa de organização criminosa apresentada pela PGR. Os argumentos defensivos, quando isolados, podem até soar plausíveis, mas perdem força quando confrontados com o conjunto probatório que aponta para uma ação coordenada e sistemática contra a ordem democrática.


A estratégia de negar participação direta nos atos mais graves, minimizar o significado de reuniões e documentos, e apresentar explicações alternativas para comportamentos suspeitos pode não ser suficiente diante da gravidade das acusações e da robustez das provas reunidas ao longo de mais de dois anos de investigação.


O julgamento ainda está em andamento, mas as sustentações iniciais sugerem que as defesas enfrentarão um desafio considerável para desconstruir a tese acusatória, especialmente quando o Supremo Tribunal Federal já reconheceu, em diversos precedentes relacionados ao 8 de janeiro, a ocorrência de tentativa de golpe de Estado.

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