Mensagens, comprovantes, auditorias e depoimentos mostram como a PF reconstruiu uma estrutura em que R$ 400 mil do milhão mensal seriam destinados à “Turma”.
Por Raul Silva para O estopim |
23 de setembro de 2026
A Rede #01

Uma pergunta curta aparece no meio de centenas de páginas de documentos policiais: “Vai ser 1mm como normalmente?”
A mensagem é atribuída a Ana Cláudia Queiroz de Paiva e foi reproduzida pela Polícia Federal na análise do celular de Daniel Vorcaro. A resposta atribuída ao então controlador do Banco Master é igualmente curta: “Sim”. Em seguida aparecem comprovantes bancários. Um deles registra R$ 1 milhão transferido pela Super Empreendimentos e Participações para a King Participações Imobiliárias, empresa de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Felipe Mourão ou “Sicário”.
A transferência é uma das peças mais concretas de uma engrenagem que a PF tenta reconstruir desde que começou a examinar telefones, mensagens, movimentações bancárias, acessos a sistemas públicos, imagens de câmeras e depoimentos ligados ao caso Master.
Em outra conversa, Mourão descreve ao próprio Vorcaro a divisão do dinheiro. Segundo a transcrição policial, o mensal seria recebido por ele e repartido. Para “a turma”, diz a mensagem, seriam R$ 400 mil divididos entre seis pessoas. Outros valores seriam encaminhados ao grupo que os documentos chamam de “Os Meninos”, além de editores e de outras parcelas da estrutura.
É dessa diferença, aparentemente contábil, que começa uma história muito maior.
O milhão e os 400 mil
A Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 1070759/2026 dedica as páginas finais a reconstruir o financiamento da estrutura atribuída a Mourão. A PF encontrou mensagens de diferentes meses em que Daniel Vorcaro, Fabiano Campos Zettel e outros interlocutores tratam de repasses de R$ 1 milhão, além de valores extraordinários.
Em julho de 2024, por exemplo, Vorcaro determina o envio de R$ 1 milhão a “Sicário”. Dias depois, Zettel fala sobre a necessidade de repassar dinheiro à King. Em outubro, uma mensagem atribuída a Zettel afirma que já havia enviado R$ 1 milhão naquela semana e acrescenta que fazia o pagamento “todo mês”.
Em julho de 2025 surge a pergunta que abre esta reportagem: se seria “1mm como normalmente”. O diálogo é acompanhado por comprovantes, entre eles aquele que registra a transferência de R$ 1 milhão da Super para a King.
Esse documento bancário confirma pelo menos uma operação concreta do circuito descrito nas conversas. Ao estimar quanto Mourão poderia ter recebido em aproximadamente 24 meses, o relatório fala em valor “plausível” de ao menos R$ 24 milhões. Ao aplicar os R$ 400 mil mensais atribuídos à “Turma” ao mesmo período, calcula que o núcleo poderia ter recebido aproximadamente R$ 9,6 milhões.
A imprensa já revelou partes importantes desse circuito, inclusive a cifra de R$ 400 mil, e O estopim publicou anteriormente o papel atribuído a Zettel no fluxo financeiro. Esta reportagem avança por outro caminho: reconstruir o que teria sido comprado com essa estrutura e separar, em cada matéria, o que foi pedido, o que foi tentado, o que alguém afirmou ter conseguido e o que possui confirmação externa.
A rede de Daniel Vorcaro: quem mandava, quem executava e quem pagava
A arquitetura apresentada pela PF não é uma simples lista de pessoas em um grupo de mensagens.
Daniel Vorcaro é descrito pelos investigadores como o principal demandante das ações. Felipe Mourão aparece como intermediário e coordenador operacional. Fabiano Zettel e Ana Cláudia são colocados pela investigação no circuito financeiro. Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado, é apontado como uma liderança operacional em campo.
A etapa posterior da investigação acrescenta Manoel Mendes Rodrigues, Sebastião Monteiro Júnior e Anderson Wander da Silva Lima à estrutura que a PF chama de “A Turma”. Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, passa a ser descrito pelos investigadores como demandante e operador financeiro em momentos posteriores da apuração.
O STF, ao divulgar a sexta fase da Compliance Zero, reproduziu essa divisão como a versão apresentada pela Polícia Federal: Henrique como operador financeiro, Marilson como liderança operacional, Manoel associado a um braço no Rio, Sebastião como policial aposentado e Anderson como policial federal em atividade.
Saber: quando a informação chegava antes
Uma parte da função atribuída à estrutura era saber quem estava sendo investigado. Saber o conteúdo de procedimentos. Saber onde uma pessoa morava, com quem se relacionava, quais eram seus documentos e em quais processos aparecia.
Em dezembro de 2023, segundo a IPJ-A 1020625/2026, Vorcaro envia a Mourão comentários publicados por Vladimir Timmerman e pede providências. Nos dias seguintes, a conversa passa por dados cadastrais, monitoramento e consultas processuais.
Em determinado momento, Mourão afirma que o alvo estaria sendo acompanhado “24 horas”. Em outro trecho, encaminha consultas referentes a procedimentos que a análise policial identifica como submetidos a sigilo.
Em fevereiro de 2024, o padrão reaparece. A PF registra a circulação de informações sobre procedimentos e consultas classificadas como sigilosas.
A investigação encontrou ainda um episódio em que Marilson pede ao policial federal Anderson Wander da Silva Lima informações sobre um inquérito que envolvia Henrique Vorcaro. A auditoria do ePOL registra acesso ao procedimento por uma delegada poucos minutos antes de informações relacionadas ao caso circularem entre os interlocutores.
A proximidade temporal é um dado. Quem efetivamente entregou a informação, com qual consciência e com qual finalidade é outra pergunta.
Outro documento abre uma janela ainda mais antiga. A IPJ 1813573/2026 analisa registros de acesso vinculados à conta funcional de Marilson antes de sua aposentadoria. A PF encontrou consultas relacionadas a Daniel Vorcaro, Banco Máxima e pessoas associadas ao seu entorno em 2021 e 2022, inclusive acessos realizados à noite.
O achado permite perguntar se serviços de informação precederam a estrutura que mais tarde seria chamada de “A Turma”.
Vigiar: documentos, rotina e “24 horas”
O segundo verbo é vigiar. A expressão mais direta aparece no acompanhamento atribuído a Vladimir Timmerman. Mas a lógica de levantamento pessoal reaparece em outros episódios.
Em 28 de maio de 2024, Daniel Vorcaro encaminha a Mourão dados de Luis Felipe Woyceichoski e pede um levantamento. Depois envia informações de Leandro Garcia.
Os dois haviam trabalhado no entorno pessoal de Vorcaro. Nos dias seguintes, a conversa deixa de ser somente uma pesquisa digital. Surge a ideia de uma abordagem presencial.
É nesse ponto que a documentação permite acompanhar uma ordem sair de um telefone e encontrar, dias depois, pessoas reais em Angra dos Reis.
Pressionar: Angra dos Reis, 4 de junho de 2024
No dia 1º de junho de 2024, segundo as mensagens extraídas pela PF, Vorcaro discute com Mourão quem deveria abordar os ex-funcionários.
Uma das mensagens fala em ir com Fabiano e com policiais. Outra menciona a necessidade de dois policiais. Em seguida, Vorcaro pondera se seria melhor uma “turma polícia” ou “de bicheiro”, acrescentando que policiais talvez não intimidassem tanto.
Mourão responde que iria com quem Vorcaro determinasse. Três dias depois, pessoas procuraram Luis Felipe Woyceichoski na Marina Bracuhy, em Angra dos Reis.
Luis contou à PF que estava fora da cidade quando recebeu informações sobre homens que o procuravam. Posteriormente falou por telefone com um homem que se apresentou como Manoel, afirmou ser amigo de Daniel Vorcaro e, segundo o depoimento, demonstrou conhecer detalhes sobre a rotina e a família do ex-funcionário.
Luis disse ter interpretado a conversa como ameaça e afirmou ter deixado Angra com a família por medo.
Naquela mesma noite, Leandro Garcia estava em um hotel quando foi abordado.
Em depoimento formal de 27 de março de 2026, Leandro relatou que um dos homens se apresentou como Manuel ou Emanuel e outro seria a pessoa posteriormente conhecida por ele como “Sicário”. Segundo seu relato, havia outras pessoas nas proximidades e um envelope continha informações pessoais.
Leandro afirmou que a conversa ocorreu em tom aparentemente controlado, mas que entendeu a mensagem como intimidação para que não voltasse a causar problemas a Vorcaro.
O relato ganhou um elemento adicional quando a PF realizou procedimento formal de reconhecimento fotográfico. Depois de descrever previamente o homem que dizia ter encontrado, Leandro recebeu cinco fotografias e apontou Manoel Mendes Rodrigues.
Há ainda uma terceira testemunha.
Tatiana Dantas Carta disse ter visto aproximadamente seis ou sete homens na marina, alguns posicionados à frente e outros atrás. Ao analisar posteriormente uma imagem de Mourão, afirmou perceber semelhanças físicas, mas não conseguiu reconhecê-lo com segurança.
O conjunto de Angra é, ainda assim, um dos mais robustos da documentação analisada porque conecta mensagens anteriores, preparação, deslocamento descrito nos autos, relatos de duas pessoas abordadas, uma testemunha e um reconhecimento formal.
A PF registra, porém, outra limitação: não imputou autonomamente delitos de ameaça contra Luis e Leandro porque não houve representação das vítimas no prazo legal aplicável.
Retirar: a guerra pelos resultados de busca
O terceiro campo de atuação não exigia presença física. Nas conversas analisadas pela PF surgem ordens relacionadas a notícias, perfis, resultados de busca e conteúdo negativo sobre Vorcaro.
Em determinados trechos, Mourão afirma que conteúdos estavam sendo retirados do ar. Em outro, usa a expressão “clean permanente”.
Também há mensagens sobre separar resultados negativos do Google, tentar removê-los e produzir material positivo capaz de ganhar posições nas buscas.
Aqui aparece uma diferença metodológica fundamental.
Uma conversa em que alguém ordena derrubar determinado conteúdo comprova a ordem.
Um pedido encaminhado a uma plataforma pode comprovar a tentativa.
Uma mensagem de Mourão dizendo que algo foi “derrubado” comprova que ele afirmou ter obtido o resultado.
A PF também investiga expedientes que poderiam envolver utilização irregular de canais destinados a autoridades e documentos questionados para solicitar remoções.
Depois da operação, a cobrança continuou
A história não termina com as primeiras fases da Compliance Zero.
Em janeiro de 2026, mensagens apreendidas pela PF mostram Marilson cobrando Henrique Vorcaro. Aparecem referências a “400” e depois a “800k”. Em um diálogo, Henrique afirma estar em um momento no qual precisava do grupo.
Para a PF, as conversas mostram que o pai de Daniel assumiu papel de demandante e operador financeiro. Henrique nega essa interpretação.
Em carta enviada em 22 de setembro ao ministro André Mendonça, ele afirmou não integrar “A Turma” e sustentou que contatos e pagamentos investigados estavam ligados a negócios imobiliários. A defesa também vem questionando sua prisão e o estágio das investigações.
Os documentos trazem outros elementos que a PF utiliza para sustentar a continuidade da rede.
Em 1º de março, câmeras de um condomínio registraram Sebastião Monteiro Júnior encontrando Marilson Roseno. Os dois permaneceram juntos por cerca de uma hora.
No dia seguinte, um Range Rover registrado em nome da King Participações, empresa de Mourão, ficou nas proximidades do endereço de Marilson. Durante o período, os registros telefônicos mostram contatos envolvendo Mourão e Henrique. Depois há uma tentativa de contato com Manoel.
No dia seguinte, Marilson informa que teria um encontro com Henrique e, posteriormente, telefona para Sebastião.
As notas fiscais e o dinheiro que chegava a Marilson
Outro rastro passa pela Roseno & Ribeiro Gestão Empresarial, empresa ligada a Marilson.
A PF encontrou conversas com o contador e documentos referentes à emissão de notas para a King. Há valores de R$ 50 mil em diferentes meses, além de registros maiores em outros períodos, descritos formalmente como prestação de serviços comerciais e administrativos.
A investigação interpreta esses documentos à luz das conversas sobre os pagamentos da “Turma”.
Marilson diz que a “Turma” era “fake news”
Ao ser confrontado com a investigação, Marilson negou ter trabalhado para Daniel Vorcaro ou para o Banco Master nos termos descritos pela Polícia Federal.
Mais do que isso, segundo as mensagens extraídas de seu telefone, ele sustentou que a história da “Turma” seria falsa e afirmou que Felipe Mourão teria pedido que gravasse áudios sobre cobranças e movimentações inexistentes para justificar o próprio salário.
A explicação cria uma hipótese defensiva testável: se Mourão fabricava uma estrutura fictícia para obter dinheiro, seria necessário explicar por que outros documentos mostram pessoas em campo, reuniões entre personagens, consultas a sistemas, notas fiscais, o reconhecimento de Manoel por Leandro e diálogos nos quais Daniel Vorcaro aparece dando ordens diretamente.
A defesa de Daniel contesta a própria existência do grupo
Daniel Vorcaro também rejeita a narrativa da PF. Sua defesa nega categoricamente as acusações e afirma que ele sempre colaborou com as autoridades. Em manifestação judicial anterior, os advogados chegaram a pedir que a Polícia Federal apresentasse elementos objetivos sobre a própria existência do grupo denominado “A Turma” e sobre eventual participação de Vorcaro.
A contestação é relevante porque parte da nomenclatura usada na investigação nasce das próprias mensagens e da interpretação policial sobre o funcionamento conjunto dos personagens.
O peso do caso vem do conjunto: frequência de pagamentos, ordens, divisão de tarefas sugerida nas conversas, consultas a sistemas, abordagens presenciais, atuação digital e movimentações que a PF considera conectadas.
Se esse conjunto preencherá os requisitos penais imputados é matéria para investigação, acusação, defesa e julgamento.
Manoel nega braço armado e organização criminosa
A defesa de Manoel Mendes Rodrigues afirma não ter recebido acesso integral a todo o material e nega de forma categórica que ele tenha comandado braço armado ou integrado organização criminosa.
Segundo seus advogados, o que existe são relações empresariais lícitas e antigas com companhias ligadas ao grupo de Henrique Vorcaro. A defesa também sustenta que trechos de conversas foram apresentados sem o contexto completo.
Essa versão precisa ser confrontada especialmente com o episódio de Angra. Não apenas porque a PF o associa à ação, mas porque Leandro Garcia realizou um procedimento formal de reconhecimento e apontou Manoel entre cinco fotografias.
O homem no centro da operação não pode mais responder
Felipe Mourão é o personagem que aparece no maior número de conexões operacionais desta história.
É ele quem recebe pedidos, relata resultados, explica pagamentos, menciona grupos distintos e surge como ponte entre a vontade atribuída a Vorcaro e diferentes executores.
Mourão morreu em março de 2026, depois de ser preso pela Polícia Federal.
Documentos periciais divulgados meses depois sustentam que ele agiu sozinho no episódio que levou à sua morte e que não foram encontradas evidências de participação externa.
Sua morte retira da investigação uma fonte central que poderia explicar o significado de mensagens, nomes, valores, códigos e afirmações que agora precisam ser testados por outras provas.
Uma estrutura para saber, vigiar, retirar e pressionar
O que este primeiro conjunto permite enxergar é mais delimitado e, por isso, mais sólido.
A PF encontrou uma estrutura financiada por um fluxo empresarial que, segundo mensagens e ao menos um comprovante, movimentava R$ 1 milhão em um mês tratado pelos interlocutores como habitual.
Dentro dessa soma, Mourão afirmou que R$ 400 mil eram divididos entre seis integrantes da “Turma”.
Os documentos atribuem ao núcleo tarefas que se repetem em quatro direções: obter informação, monitorar pessoas, atuar sobre reputação e conteúdo digital e exercer pressão presencial. Episódios como Angra dos Reis, diferentes camadas de evidência começam a se encontrar.
É nessa interseção, e não no tamanho isolado das acusações, que está a parte mais relevante da história.
O que acontece agora?
A investigação permanece aberta. Daniel Vorcaro e Henrique Vorcaro estão com depoimentos marcados pela Polícia Federal para 30 de setembro, em oitivas relacionadas justamente ao inquérito sobre “A Turma”. Segundo informações divulgadas pela CNN e pela Folha, a PF trata esses depoimentos como uma etapa importante antes da conclusão dessa fase da apuração.
Como O estopim apurou?
A reportagem examinou 21 PDFs, com 822 páginas, além de 155 imagens documentais selecionadas do próprio processo. Foram analisados ainda quatro vídeos de depoimentos e quatro arquivos de áudio correspondentes.
Há ainda uma inconsistência documental a esclarecer: a IPJ-A nº 1020625/2026 traz no cabeçalho a data 19/02/2025, embora analise material posterior à Operação Compliance Zero de novembro de 2025 e carregue numeração de 2026. O conteúdo cronológico aponta para possível erro material de data, mas O estopim não corrigirá um documento oficial por conta própria.
A página oficial da PET 15.978 no STF confirma a vinculação ao processo de vários dos números de documentos analisados nesta reportagem.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na produção de reportagens, análises e conteúdos de interesse público para as plataformas do portal.
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